quarta-feira, 16 de abril de 2014

Dia 26 tem Mimi Barros com o melhor dos anos rebeldes!

por Pituca Ferreira




Anos Rebeldes na Alternativa Cultural: tudo “Divino Maravilhoso” “Acorda amor Eu tive um pesadelo agora Sonhei que tinha gente lá fora Batendo no portão, que aflição Era a dura, numa muito escura viatura Minha nossa santa criatura Chame, chame, chame lá Chame, chame o ladrão, chame o ladrão” Não se assuste!!! Estes tempos não voltaram. É Mimi Barros te chamando pra acordar no sábado, dia 26 de abril, mas sem polícia, e sem ditadura militar. Abril é um mês quando é lembrado um dos piores episídios da história do Brasil. Pior sim... Homens, mulheres, crianças, sendo torturadas por “subversão”... Eram os anos rebeldes. Mas como na minha concepção tudo o que é ruim também tem seu lado bom, fico com as artes. O teatro, o cinema, a música!!!! Ah!!! A música... Que riqueza este período trouxe ao povo brasileiro quando esta “ditadura” ganha os palcos do país. E neste cenário, surgem vários movimentos, dentre eles o que sacudiu aquele ambiente “Bossa Nova” ou “Jovem Guarda”. O Tropicalismo então rompe com todo aquele movimento tradicional e nacionalista. Guitarra elétrica e o psicodelismo ganham destaque. Caetano Veloso e Gilberto Gil puxaram este coletivo, que tinha ainda participações de Gal Costa, Tom Zé, Mutantes, Rogério Duprat, Capinan, Torquato Neto e Nara Leão. “Eu organizo o movimento, eu oriento o carnaval, eu inauguro o monumento, no planalto central do Brasil”. Resumindo.... Era isto... Mas não foi só isto!!! Vandré, Chico Buarque, Edu Lobo, e muitos outros, também davam muita “dor de cabeça” para os mandatários do “pau de arara”. E, pra falar a verdade, Chico foi uma grande pedra no sapato. Afinal, muitas músicas não eram “entendidas” pelos milicos, meganhas, como quiser definir... E ele driblava, assim como tantos outros, a temida censura. “Se lembra do jardim oh maninha Coberto de flor Pois hoje só da erva daninha No chão que ele pisou” Enfim, se for falar da riqueza que este período trouxe para a Música Popular Brasileira, não vamos parar. Mas vale a pena lembrar da “Música nos Anos Rebeldes”, quando este período da história brasileira completa seu cinquentenário. Por isto, a historiadora Mimi Barros realiza na Alternativa Cultural, localizada na rua Major Eustáquio, 500, discotecagem de músicas relacionadas aos primeiros anos da Ditadura. Uma manhã pra você passar no espaço do Café Sabor & Saber e não mais esquecer. Esperamos você lá, a partir das 11h. A entrada é franca. Afinal, “é preciso estar atento e forte; não temos tempo de temer a morte.”

terça-feira, 15 de abril de 2014

"Encantados" por Iara Fernandes

Os olhos enormes já fatigados de tanta vista colorida e nebulosa, pelos tantos anos de chegados ao mundo. A pele do rosto sulcada com a arquitetura do cansaço, o acetinado que bem recebia o bronze e a lisura da barba bem feita, agora cedidos às frestas pequenas e profundas. Os lábios sibilantes e pintados com a cor da juventude assentaram-se na mandíbula um tanto silenciosa e de movimentos mais lentos. O nariz, sempre marca para brincadeiras, repousado em diminutas manchas; ainda capaz de discernir aromas e brisas, mas com menos dedicação. Sempre fora um homem tranquilo, cumpridor dos ritos. A juventude, os poucos amores, a busca guiada por Saturno, esse Deus guerreiro sob cuja marcam nascem os de sexo masculino, o carro conseguido depois de muito juntar as notas miúdas que recebia em troca dos serviços prestados, a casa construída parede a parede, a constituição da família, a esposa reta e inalterável, pronta para acompanhar, aprovar e consolidar o viver sob o mesmo teto, o até que a morte nos separe; os filhos – dois meninos e uma menina, corretos em suas interpretações – viveram o que lhes foi oferecido, sem muito questionar, até a idade de 20 e poucos anos. Depois disso, foi só desapego, destempero, buscas tortas e encontros infelizes consigo próprios, com outros em igual projeção, buscando salvação entre quem também só podia oferecer o desejo de se salvar... Os meninos bifurcaram os caminhos logo depois do Ensino Médio e, se um foi cuidar do seu desassossego, surfando nos mares australianos, o outro se enfurnou em grandes fazendas de café, no interior de São Paulo. A filha, essa lhe deu o gosto de saber sobre ser avô. Quando a vida parecia meio enfadonha, tudo feito, tudo posto, pronta para a chegada da ‘indesejadas das gentes’, as tardes longas e tediosas, as noites curtas e doloridas, a memória traindo a vontade, o desejo soterrado pela rotina, ela, sua bonequinha de louça, anuncia a chegada de um futuro provavelmente loirinho e de olhinhos azuis.

Reacendeu-se, revigorou-se. Agora era preciso que o quarto dela, transformado em um misto de caixa de guardados e depositário de lembranças, voltasse ao vigor do choro de bebê; que as tábuas do assoalho rangessem menos ao toque, ainda que delicado, dos pezinhos descalços ao encalço da mãe, da mamadeira, do cachorrinho da casa. Sim! Esse garotinho ocuparia esse cômodo e todos os outros de sua vasta morada corporal. O coração aguentaria muito mais agora, o pulmão faria sua parte, o estômago deixaria de tanto nhenhenhém, a cabeça voltaria a pensar direito. Tudo seria diferente. Chegaria ao seu lar, a sua fortaleza; seu motivo para mais uns anos de vida intensa, na medida do que ainda poderia arrancar de dentro de sua vida pacata. A criança viria de longe, nascida em terras médias, saxônicas e imperiais. O pai, escocês de papel passado, não dera prosseguimento ao romance com a mãe-filha. A ela restou reunir força e coragem, pedir abrigo no peito e na casa paterna e lançar-se em um voo de longas horas, atravessando o Oceano Atlântico e o oceano de si mesma, bem mais conturbado e difícil de enfrentar.

A chegada dos dois determinou uma engenharia de sentimentos e tarefas: o quarto completo, com berço em madeira de lei e macios tapetes; brinquedos, mimos, figuras alegres e protetoras em algumas das paredes; janelas caiadas, tramelas besuntadas, livres dos rumores de assustar; no canto esquerdo, a poltrona onde a mãe amamentara e embalara a filha, com nova textura e colorido; o guarda-roupa, já recheado de lençóis cheirando a alecrim e malva, de braços abertos para receber enxovalzinho de fraldas e pecinhas encantadoras e os novos trajes da mãe, que não mais guardaria nele, macacões jeans, camisas de flanelas ou vestidinhos floridos.

Tudo previsto para a manhã de Domingo de Ramos. Depois da missa e de todo o agradecimento emocionado, rumar para o aeroporto era dádiva das mais inesquecíveis. Terminada a celebração, às 10h, ele e esposa já estavam no aeroporto às 10h30. Quando os passageiros começaram a encher o salão de desembarque, sentiu a pulsação alterada. Um fogo o inquietou, pensando na eternidade que era esperar pela mala rolando na esteira. De longe, viu apenas uns finos fios loiros, acima de algum ombro, mas já sabia serem dele, do netinho esperado. A avó também mal se continha, mas manteve a pose, como se temesse que a emoção do momento pudesse se concentrar apenas nela. Os abraços à filha foram triplos, apertados, chorosos e descomedidos. Duraram longos e sedosos minutos, dizendo tudo o que, em palavras, não seria dito. Coube ao avô o privilégio de segurar o pequeno guerreiro que atravessara todo um oceano para ter com pessoas de amor infinito antes de saberem de seus olhinhos de mar profundo, sapecas e brilhantes; de suas bochechas gordinhas e rosadas; de sua boquinha desenhada em papel de seda e colorida com o carmim mais vibrante; de suas mãozinhas fofuchas e serelepes; de seu narizinho puxado ao do avô, sensível e avermelhado, na ponta, pelo choro da surpresa.

O avô o ajeitou no colo-ninho, de modo que ele olhava para aquele rosto tão diferente do de sua mãe e chorava minguido, as lagrimazinhas nem fazendo o caminho completo do azul das pupilas ao vermelho da bochecha. Quando pensava em voltar a chorar, franzia a testinha, mirava com severidade a cara peluda à sua frente, inclinava a cabecinha, elevava a mão até a altura de fazer um carinho e sentir o que era aquilo, mas desistia antes de completar. O avô, encantado com o homenzinho em seus braços, fazia caretas, falava das arrumações, piscava, sorria, chorava, se entregava e, não fosse mãe e avó conduzirem os dois ao mundo real, ali ficariam: um atravessando outro, no choro, na conversa desencontrada e bem entendida, nos olhares profundos de puro aconchego, ainda que o pequeno não soubesse bem o que fazer diante daquele ser nunca visto. Nesse enlevo, em algum momento, enquanto a mãe carregava a mala e a avó aviava a saída do saguão, as bochechas rosadas e os espertos olhinhos azuis sentiram, na temperatura do carinho, que o rosto ainda não tocado e o semblante a ser ainda bem estudado pertenciam a alguém que vinha da mesma luz de sua mãe. O corpinho rijo e na dúvida, deu lugar ao abraço apertado, os bracinhos envoltos no pescoço do barbudo. A mãe, vendo tal cena, achou graça e, em meio a um terno sorriso, disse: “Felipe, este aí é o vovô!”


O garotinho olha-a, olhou o avô, olhou-a novamente, olhou para a avó, estudou a barba, tocou de leve, riu com a sensação, pensou em chorar, de novo, segurou o choro em uma careta fofa e decidiu confirmar que sua mãe estava certa. Encarou com toda lindeza possível o homem barbudo e, com mais interrogação do que constatação, balbuciou a esperada música: “Vovô!”


quarta-feira, 9 de abril de 2014

Sábado tem Sarau e Sebo Especial!



No próximo sábado (12 de abril), o  MUH! Jornal Cultural lança sua 11ª edição. Como de costume, o Sarau MUH! comemora o lançamento com música boa e muita cultura! 


A festança no Café Sabor e Saber começa às 10h30 e a entrada é franca!

Confira a programação:
  • música ao vivo com ChoroCultura
  • performance: Jambo Elétrico, com Wederson Gonçalves

E mais! Estão todos se sentindo com sorte? A desenhista Law Cosci vai disponibilizar suas ilustrações fantásticas, feitas especialmente para ocasião, que serão rifadas! 

E a fala está sempre aberta para quem quiser dar o recado, recitar um poema, etc. Todos são bem-vindos :)

E se você acha que parou por aí... Não mesmo!

No próximo sábado teremos Sebo Especial com uma banca de livros com preço único de R$3!

IMPERDÍVEL!