terça-feira, 22 de abril de 2014

"A rota das borboletas" por Iara Fernandes


“Não se pode ter paz evitando a vida.” A frase, falada por um dos personagens do filme visto, uma semana antes, ainda ecoava na cabeça de Luísa. Era preciso se esquecer de toda aquela cena, aquela confusão de conversas e olhares, nenhuma dizendo coisa alguma, nada significando algo que valesse a pena.
O melhor a fazer era tomar um mapa pelas mãos e nele traçar o rumo de sua vida. Um mapa nada mudaria, mas percorrer qualquer distância que nele houvesse marcado, alteraria o trajeto enfadonho de sua alma, preguiçosa e desejosa apenas dos caminhos conhecidos que não exigiam esforço, nem gasto de sentimentos.
Foi com dificuldade que deu o primeiro passo, abriu a gaveta, retirou o papel amarelado e um pouco amassado, abriu-o sobre a mesa ainda cheia dos restos de bebida da noite anterior e, com o pincel em ponta vermelha, refez as linhas que a levariam ao sul de sua dor, ao longe de uma existência tão fatigada, naquele momento. Ou, pelo menos, acreditava nisso. As horas passadas na meditação e na ioga, os estudos profundos financiados pela vontade de poder cumprir outros papéis, ou nem cumprir nenhum, os momentos silenciosos de visitas ao passado... Tudo se concentrava agora numa espécie de redemoinho em meio às suas calmas águas. Um sumidouro que, instalado no meio do peito, engolia todas as tentativas de recompor-se. Porém se havia a história de que a única coisa que permanece é a ideia da impermanência, latente em seus sentimentos, permanecia uma vontade comprida e de potência, de se mover, de se colocar em passagem, além desta que já nos é a vida. Passar de um lugar a outro, de um sentimento a outro, sem medidas, sem profundezas. Apenas um verniz de cada coisa e muitas delas a rechearem o oco da existência. Era se olhar e ver um peito transparente, feito de nada; uma alma indefinida, feita de interrogações; um rosto mutante, feito de palidez e lacunas.

O mapa lhe mostrou de tudo um pouco: montanhas, lagos, escarpas, frio, calor, água de sal, água de açúcar, flores, desertos, gente, vastidões... “Água, por certo; doce, por certo; sem corredeiras, com garantia de poder exercer meu silêncio.” O sol a pino, os contatos com a gente do barco, a manhã de luz e azul vibrantes. A cor das águas já operaria milagres no olhar de quem as via. Adentrar nelas era perder as cores. Apenas de cima se via densidade tão mágica. As mãos queriam o poder de tocá-las e trazer os tons. Os olhos queriam reter verde tão intenso. No tempo de apenas se ajeitar, ao lado esquerdo, na bancada de madeira gasta e dura, ali se quedou, imóvel. O motor deu seu aviso costumeiro e uma gente de toda cor e tamanho enchia a embarcação e anunciava suas alegrias e vaidades, com gritinhos e expressões de curiosidade e entusiasmo. Tanto mais as vozes se avolumavam, mais seu silêncio se consolidava. A sensação era boa. Seu eu estava em pleno enlevo consigo mesma e só confirmava que havia feito uma boa escolha.
No pensamento, recordações desencontradas de infância com a noite anterior; de pai e mãe com amores de adolescência; de amigos queridos com lugares estranhos. Fotografias, cenas, palavras... O turbilhão havia voltado, mas desta vez, nada engolia. Tudo que chegava, girava muitas vezes, para depois tomar um lugar. Ao longo do caminho do rio, foi se sentindo um armário cheio de coisas que não deviam se misturar, misturadas. Tudo que vinha ao turbilhão e girava, desaguava em cantos nos quais possivelmente não ficariam, quando houvesse uma nova organização. Não seria ali, nem naquele momento. A viagem só empreendia o deslocamento que, por si só, bagunça – ainda que de leve – a doce ilusão de tudo no seu lugarzinho certo, dentro da gente. Dentro da gente é guerra e negar as explosões, os desmoronamentos e os caminhos escuros, cheios de armadilhas, é ledo engano. Não lutar, nem ter vontade de sair da trincheira são as piores ciladas.

A paisagem oferecia um regalo para a captura de imagens. Rochas, água, vegetação exuberante, barquinhos descendo o rio, levando uma gente morena, de olhos apertados, protegida por guarda-sóis vermelhos e amarelos, em pura poesia. Quanto mais lançava os olhos ao horizonte das águas, mais Luísa se desfazia de si, com a certeza de se encontrar em outra rota. Era assim mesmo que queria e estava funcionando. Aos poucos, deixou de lado tanta dor e, no espelho das verdes águas do São Francisco, viu, no verde espesso de seus olhos, que mudanças no caminho nem sempre exigem sair de algum lugar. Certo, mesmo, dá, quando saímos daquilo que disseram que somos. Há um universo inteiro atravessando nossas vidas, há mundos paralelos que não compreendemos e temos é que nos preocupar com a declaração do imposto de renda? Se tudo é, também é, deixar de ser. “Deixe-se ser, Luísa. Deixe-se não ser, Luísa.” A brisa que roçou seu rosto, naquela hora exatinha foi que soprou nos ouvidos: “O que te fere já foi. Veja onde você está agora. É possível mudar tudo em pouquíssimo tempo, ainda que você tenha que retornar aos lugares de onde veio e lá reencontrar toda a cena: sua mesa, seus pertences, a cara repugnante do chefe, os colegas agindo na desconfiança, o garoto que disse que você não havia feito o pedido e a falsa amiga que afirmou que você havia falsificado a assinatura do superior. Houve tempo, Luísa, e a você foi concedido o benefício da dúvida, quando desconfiou de um certo colega, sempre muito solícito e amoroso. Não fosse isso, não haveria a Luísa limpa e sem delitos, aos seus próprios olhos. Você não falsificou nada, não prejudicou ninguém – como quiseram fazer crer, ao dizerem que ninguém receberia o salário, naquele mês, por conta de sua crueldade – nem furtou a quantia alardeada massivamente nas mídias que, por tantas vezes, se comportam como fábricas de incertezas e de inverdades.”


Uma horda de delicadas borboletas de asas brancas, delineadas com tons leves de amarelo, passou à frente de seus olhos. Nessa hora, Luísa já estava de pé, à proa da embarcação, e, surpresa, olhou de ambos os lados e nada havia além de uma imensidão de águas brilhantes e profundas. "De onde elas vieram e para onde vão? Não aguentariam tanto tempo voando de uma margem à outra!” Seguiu-as até onde a vista alcançou e elas não saíram do domínio das águas. Tremulavam em fio oscilante, serelepes e corajosas. Se a energia acabasse ali e despencassem todas, falecidas, flutuando sobre a lâmina d’água, assim seria, mas – certamente – havia planos mais ousados para quem se habilitava a atravessar tanta vastidão. Havia, sim, e Luísa sabia disso.

sábado, 19 de abril de 2014

AMOR ETERNO por Paulo Cecílio

fui desatento e A magoei em silencio ELA partiu olhando o vazio sonhando um sonhar que já não me tem um sonhar que me guardou num quarto escuro amando coisas que secam ao sol como frutas abertas: toalhas com cheiro de amor seu sorriso abraços pequenas lembranças bilhetes suas carnes molhadas (secam) neste quarto já frio de seu corpo... A segui como um lobo num longo inverno que trinca meus caminhos de terra e sequidão mas há algo entre nós como as ondas do mar: eu vou voltar, e de novo, ELA, hei de amar... PAULO Cecilio

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Dia 26 tem Mimi Barros com o melhor dos anos rebeldes!

por Pituca Ferreira




Anos Rebeldes na Alternativa Cultural: tudo “Divino Maravilhoso” “Acorda amor Eu tive um pesadelo agora Sonhei que tinha gente lá fora Batendo no portão, que aflição Era a dura, numa muito escura viatura Minha nossa santa criatura Chame, chame, chame lá Chame, chame o ladrão, chame o ladrão” Não se assuste!!! Estes tempos não voltaram. É Mimi Barros te chamando pra acordar no sábado, dia 26 de abril, mas sem polícia, e sem ditadura militar. Abril é um mês quando é lembrado um dos piores episídios da história do Brasil. Pior sim... Homens, mulheres, crianças, sendo torturadas por “subversão”... Eram os anos rebeldes. Mas como na minha concepção tudo o que é ruim também tem seu lado bom, fico com as artes. O teatro, o cinema, a música!!!! Ah!!! A música... Que riqueza este período trouxe ao povo brasileiro quando esta “ditadura” ganha os palcos do país. E neste cenário, surgem vários movimentos, dentre eles o que sacudiu aquele ambiente “Bossa Nova” ou “Jovem Guarda”. O Tropicalismo então rompe com todo aquele movimento tradicional e nacionalista. Guitarra elétrica e o psicodelismo ganham destaque. Caetano Veloso e Gilberto Gil puxaram este coletivo, que tinha ainda participações de Gal Costa, Tom Zé, Mutantes, Rogério Duprat, Capinan, Torquato Neto e Nara Leão. “Eu organizo o movimento, eu oriento o carnaval, eu inauguro o monumento, no planalto central do Brasil”. Resumindo.... Era isto... Mas não foi só isto!!! Vandré, Chico Buarque, Edu Lobo, e muitos outros, também davam muita “dor de cabeça” para os mandatários do “pau de arara”. E, pra falar a verdade, Chico foi uma grande pedra no sapato. Afinal, muitas músicas não eram “entendidas” pelos milicos, meganhas, como quiser definir... E ele driblava, assim como tantos outros, a temida censura. “Se lembra do jardim oh maninha Coberto de flor Pois hoje só da erva daninha No chão que ele pisou” Enfim, se for falar da riqueza que este período trouxe para a Música Popular Brasileira, não vamos parar. Mas vale a pena lembrar da “Música nos Anos Rebeldes”, quando este período da história brasileira completa seu cinquentenário. Por isto, a historiadora Mimi Barros realiza na Alternativa Cultural, localizada na rua Major Eustáquio, 500, discotecagem de músicas relacionadas aos primeiros anos da Ditadura. Uma manhã pra você passar no espaço do Café Sabor & Saber e não mais esquecer. Esperamos você lá, a partir das 11h. A entrada é franca. Afinal, “é preciso estar atento e forte; não temos tempo de temer a morte.”