quarta-feira, 20 de junho de 2012

"Apologia da Inteligência" por Adhemir Marthins

"O tempo é o único capital de quem só possui a fortuna de sua inteligência."
(Honoré de Balzac)

Adão ao fazer a opção pelo conhecimento fez a escolha mais humana, a única que poderia ter feito, pois o que nós somos além de pensamentos e necessidades, de angústias e porquês? Adão inicia em si a existência da história e nos possibilita as contradições, as negações, os erros e os acertos. O pensamento é o melhor caminho para descobrirmos quem nós somos, o que buscamos, o que queremos. Estamos poluídos e atingidos na inteligência pelas respostas prontas de uma vida alinhavada nas estruturas, sejam elas econômicas, religiosas ou sociais. Quero acreditar que a minha historicidade deve se dar no presente pela interiorização da própria vida sem negar o passado, presente ou futuro. A inteligência deve ultrapassar conservando e não destruindo as lembranças e as perspectivas. Não se trata de um ato solitário, mas livre, intocável.

Somos história permanente e o curso desta história é o desenvolvimento, o amadurecimento interior, a conquista de si, a interiorização, mas nunca extraídos da presença do outro para uma compreensão não profanada do que somos e fazemos neste planeta. O homem se conquista, se busca na história, na sua origem e se encontra. Inteligência é para isso. Um guia para não nos perdermos no universo das coisas pequenas, prosaicas, enfadonhas, mesquinhas. A inteligência é o ar que respiramos. O devir desta inteligência deve ser um passeio para fora e não para dentro de nós mesmos se resguardando com medo do outro. Quando o movimento da inteligência é para dentro o fim do tempo, o fim da história fica mais próximo em nós. A vida não deve ser vivida para dentro, mas expandir-se para fora. Do centro para fora. Quando nos voltamos para o centro de nós mesmos, nos materializamos e isso é capitalismo interior. O retorno para a interioridade é plausível na fé e este não é o ponto. É bom, mas nos enfraquece como um véu que falseia, mascara a realidade em algumas situações. Nos deixa cômodos e irresponsáveis diante de uma realidade que exige mais de nós do que um olhar a distância, sem sujar as mãos. Muitas vezes, a viagem pelo interior de nós mesmos pode nos afastar muito do mundo. Se quiser fazer isso vá para um mosteiro. Lá os olhos estarão cerrados e descompromissados com a realidade externa. Só a fé poderá salvá-lo. Mas é tão bom salvar outros. Salvar-se a si mesmo é fácil. Jesus Cristo poderia muito bem ter pensado sobre o assunto um pouco antes da cruz, mas não pensou. Aquela cruz não salva ninguém, mas sua obediência ao “Pai” sim. Aquela cruz foi apenas a conseqüência de uma obediência total a um projeto de vida em favor do outro. Uma obediência inteligente e que se expande ao ponto de tocar o princípio de tudo e revelar que história devemos fazer. O ponto onde a humanidade deve se encontrar no final de tudo. O que será dessa existência é impossível imaginar e não podemos pela inteligência antecipar a presença de Deus na história humana, mas somos os únicos capazes de compreendermos que não há outro caminho, o da renúncia de nós mesmos, de nossos individualismos. Queiramos ou não, o nosso caminho neste mundo passa pela vida do outro. Fazemos história juntos e não é necessária muita inteligência para sabermos disso.




Adhemir Marthins é autor dos livros "Um exílio e um reino" e "Apoteose dos gatos" que estão à venda na Alternativa.

Adhemir terá os seus textos postados no Blog da Alternativa Cultural às quartas-feiras.

Quer ler mais? Acesse www.ilhadasletras.blogspot.com/ .

Quer falar com o autor? Escreva para adhemirmarthins@hotmail.com

0 comentários:

Postar um comentário